
Martha Medeiros, 7-4-2003
Lendo a entrevista que o médico e escritor Drauzio Varela deu para a revista Marie Claire, encontrei a definição mais simples e exacta sobre o sentido de mantermos uma relação: "uma relação tem que servir para tornar a vida dos dois mais fácil".
Vou dar continuidade a esta afirmação porque o assunto é bom e merece ser desenvolvido. Algumas pessoas mantêm relações para se sentirem integradas na sociedade, para provarem a si mesmas que são capazes de ser amadas, para evitar a solidão, por dinheiro ou por preguiça. Todos fadados à frustração.
Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela, para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado.
Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo enquanto você prepara uma omelete, para ter alguém com quem viajar para um país distante, para ter alguém com quem ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se incomode com isso.
Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada e bonita a seu modo. Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa.
Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem o corpo um do outro quando o cobertor cair.
Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro no médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.
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Já tinha lido o texto algumas vezes ao longo dos últimos anos, mas, como em muitas coisas da vida, existem factos que fazem com que as mesmas palavras sejam olhadas com olhos e sentidos diferentes em momentos diferentes.
Assim foi com este texto, mais uma vez recebido por e-mail num pps com um erro grosseiro de atribuição de autoria, que se perpetua na Internet pela repetição da mesma informação em blogs e outras páginas. O que nos levaria para as questões do rigor da pesquisa on-line, mas não é sobre isso que agora me apetece discorrer.
Ao lê-lo, à sombra ainda de conversas e reflexões recentes, coloco imediatamente a questão: Quais são e onde estão as relações na minha vida? Não é verdadeiramente uma pergunta. É antes uma constatação de que, como noutras alturas, a minha vida sempre foi gerida com ordens e prioridades não habituais. Que em muitos aspectos a minha relação ainda está onde já deveria ter cessado. Que outras relações não conseguem encontrar espaço porque esse ainda continua ocupado pela relação antiga. E que essa relação antiga é uma relação incompleta, quase como um eco que se ainda se mantêm audível, mas ao qual já falta toda a riqueza melódica do som original.
Lendo as descrições de algumas coisas que caracterizam uma relação, melhor dizendo, algumas das utilidades de uma relação, encontro-as eu nesses laços ainda não desfeitos. Será que as não decisões têm sido afinal decisões pela facilidade? "uma relação tem que servir para tornar a vida dos dois mais fácil" E tem tornado.
Lembro-me de inúmeras vezes o Júlio Machado Vaz afirmar que as não decisões são também elas decisões. Às vezes serão mais fáceis de aceitar porque são decisões na continuidade e não no corte.
No meu caso, corte e continuidade continuam a caminhar lado a lado, como duas muletas que nos amparam.
Complemento do texto feito por Cainha em 31/5/2007.
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